Problemas são tesouros

Existem sistemas isentos de falhas? Quanto tempo de maturidade um sistema precisa ter, para não precisar mais de correções, ser imune a quebras de build, falhas de segurança, downtimes?

Existem momentos, que percebo que estamos tão acostumados a apontar os problemas como fatos negativos, que não sabemos valorizar o valor que existe em reconhecer problemas e antecipá-los para evitar o impacto negativo para aqueles que hoje são afetados por um sistema.

Hoje recebi uma mensagem de um dos bancos digitais do qual sou cliente, dizendo que o serviço estaria indisponível durante o período da noite. Essa mensagem já se repetiu algumas vezes nos últimos meses, e a principio não me mostra nenhum problema no fluxo de execução da operação, considerando ser uma startup, a qual por mais que tenha cash para queimar com a escolha do melhor time, com a implementação da melhor infraestrutura, com o uso da melhor arquitetura de referência, ainda assim, não garantirá que o serviço por ela prestado, seja imune a qualquer tipo de problema ou de manutenção.

Vi em um grupo dessas redes sociais corporativas, uma discussão, iniciada por um líder comercial, com o intuíto de instigar com a publicação, a possibilidade de oferecer a esse banco a venda de uma “arquitetura de referência” já que, pela visão exposta por ele, a arquitetura não deveria ser boa, visto a mensagem enviada aos seus clientes.

Não quero entrar na discussão técnica, mas apenas refletir, o quão estamos acostumados a não ser tratados com respeito, que chegamos a achar ruim o fato de sermos avisados que o “sistema ficará fora do ar”.

Nos últimos anos temos sidos ignorados pelos bancos que cresceram de forma acelerada, e que em diversas vezes caíram sem que seus usuários fossem avisados dos impactos. Quantas vezes já tentamos acessar um app que não estava funcionando? Ou irmos a um caixa que estava indisponível?

Agora, revendo a situação acima, vou fazer a minha reflexão sobre o quanto estamos preparados para lidar com a transparência sobre erros.

Temos que aprender a valorizar as situações onde nos são colocadas as fragilidades, sejam elas de sistemas ou mesmo de pessoas. Todos somos falhos. Essa afirmação por mais banalizada que esteja, ainda concentra o fato mais importante de todos: somos todos falhos.

Somos impulsionados desde da nossa tenra infância, a sermos sempre os melhores, sempre os mais inteligentes, chegar no primeiro lugar, ser o melhor aluno da sala, namorar com a menina mais bonita ou o menino mais forte. São diversos as influências sutis que são implantadas sobre a nossa mente, que não nos permite demostrar a fragilidades, já que o segundo lugar não é valorizado.

Dizer que não somos capazes de fazer algo, deveria ser algo muito bom, já que a partir da aceitação de nossa incapacidade, temos como obter apoio, e também aceitar apoio, para adquirir esse conhecimento. Poderíamos dizer, sem nenhum medo de ser recriminado, que “Não sei cozinhar”, “Não sei falar inglês”, “Não sei fazer contas”, “Não sei mexer num computador”, “Não consigo”… coisas que deveriam ser triviais para a nossa realidade, sendo quem somos. Porém essas afirmações não seriam vazias, já que por não ter medo de sermos censurados, poderíamos com toda coragem dizer: “Mas se você me ajudar eu aprendo”, “Com seu apoio eu serei capaz de fazer”, “Me de um tempo para aprender, que eu te mostro”.

Em outro momento falo sobre transparência, e como ela é a forma mais consistente de se criar confiança.

Para concluir, vejo a mensagem do banco, me informando das suas dificuldades técnicas, com uma certa esperança: A de que ele esta construindo uma relação de confiança para com seus clientes. Não importa se está passando por problemas técnicos, não será esse o motivo de me fazer abandoná-lo. Mas se manter essa transparência, das suas ações, com certeza estará criando em mim, um sentimento de confiança, que hoje quase não tenho nas instituições.

Este artigo foi publicado antes em: Medium

Leave a Reply

Pin It on Pinterest